Oração do avô

O tempo passa. Isso já Te disse muitas e muitas vezes. Faz tempo que já não me sinto imortal. Faz tempo que penso involuntariamente no pouco tempo que falta para viver. E como gosto de viver. Parece que agora gosto mais do que antes. Antes eu não pensava no pouco tempo que faltava. Faltava muito. Não. Faltava pouco, porque tudo é tão rápido, mas eu não sabia. Hoje, depois de tudo que vivi, sei que tudo é fugaz.

Briguei tantas vezes por motivos que não eram importantes. Perdi tempo com coisas que nem ficaram em minha memória. Foram embora. Acho que o vento levou para algum lugar. Que pena que, naquela época, faltava-me maturidade. Faltava-me conhecimento. Eu não tinha fitado ainda o curso do rio. Não tinha percebido que o rio não pode passar mais lentamente nas margens bonitas para ficar contemplando, nem mais rapidamente nas margens sombrias para encontrar outras paisagens. Ele tem um curso.

Quantas vezes quis que as coisas crescessem antes da hora. Queria ter barba. Queria dirigir. Queria ter carro, casa. Queria ser um homem. E, naquela época, parecia que o tempo não passava nunca. Lá se foram o carro, a primeira casa, os primeiros bens tão desejados e que já foram esquecidos. E o que ficou, Senhor? Ficou o essencial. Ficou a vida. Ficaram as lembranças importantes. Fiquei eu. Eu que hoje sou avô. Que estranho… Nunca planejei ser avô. Queria ser pai. E foi muito bom ver meus filhos nascendo, crescendo. Mas ser avô é surpreendente.

Meus netos são lindos e gostam tanto de mim. E eu não tenho aquelas atribulações comuns dos pais. Não tenho as mesmas obrigações. Fico com a melhor parte. Fico com a diversão. Fico com o encantamento de poder brincar o tempo todo com eles. Ora brinco de contar minha vida, meu passado. Ora brinco de ler histórias, de ajudá-los a viajar pelo mundo fascinante da literatura, da fantasia. Ora brinco de ouvir. Fazem-me de confidente. Reclamam dos pais, contam coisas sigilosas, e eu me faço de assustado. Quero partilhar dos seus sonhos e dos seus traumas, e suavizar as dores que hão de surgir.

Gosto de desafiá-los. Lembro-me de meu avô. Quantas lições aprendi com ele. Acho que os tempos eram outros, e nós não tínhamos a mesma liberdade. Mas era bom ouvir suas histórias. Era tão sereno. Olhava o mundo com imensa naturalidade. Com a naturalidade de quem já viu de tudo e de quem soube caminhar pelas sendas ásperas e pelas frondosas. Meu avô. Foi-se a tanto tempo. Ora, o tempo. Parece que foi ontem.

Hoje tenho tempo. Ainda trabalho e espero trabalhar até o último dia da minha vida. Trabalho no meu tempo. Não perco a oportunidade de viver a intensidade dos momentos que me fazem feliz. Brinco com a minha idade e rio das minhas limitações. Há uma série de coisas que não consigo mais fazer. E nunca mais conseguirei. Mas há tanto ainda para fazer. E agora o sabor é diferente. Não tenho medo da morte. Sei, Senhor, que não nasci para viver um pouco e depois desaparecer. Não sou robô. Tenho futuro. E meu futuro não tem fim. É Contigo que um dia viverei a plenitude do meu amor. E é para isso que me preparo em toda esta passagem. Para viver a plenitude do amor.

Por ora, fico aqui a sentir Tua presença em cada momento da minha vida. Hoje vejo com mais tranquilidade o milagre que todos os dias se realiza em meus olhos. O milagre da chuva que gera vida. O milagre do amor que gera vida. O milagre da vida que só é sentido quando se tem amor. Tu és amor. O meu maior amor. E agora sinto isso mais do que nunca. Quanto mais maduro vou ficando, mais sinto Tua suave presença. E, na simplicidade de cada sorriso de meus netinhos, percebo quão bela é Tua essência.

Obrigado por me dar a oportunidade de viver tanto. Obrigado por poder conviver com pessoas tão especiais. Obrigado por ter tido tempo de amadurecer e de Te sentir. Sentir-Te assim tão simplesmente, tão docemente.

Obrigado, Senhor!

Amém!

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