Oração da avó

Meu coração se enche de ternura e de preocupação. Ternura pela beleza de contemplar cada um dos meus netinhos. Como são lindo, saudáveis, adoráveis. Preocupação porque o mundo é tão diferente do tempo de outrora. Tudo é tão perigoso. Tenho medo.

Antigamente era mais fácil, sei que era. Ficávamos mais tempo em casa. Não havia televisão. Ouvíamos o rádio de quando em vez. Mamãe gostava das novelas. Papai, das notícias. Poucas casas tinham rádio. Papai ficava com o rádio ligado perto da janela. Sentia-se poderoso em saber o que acontecia em outro lugar. Mamãe chorava com o triste destino das personagens. E eu crescia nesse ambiente de presença, de respeito, de amor.

Hoje é mais difícil. Ninguém tem tempo pra nada. É preciso saber muito mais do que antigamente. É preciso falar várias línguas, conhecer tecnologia, investir nisso, naquilo. E nunca se está satisfeito.

Lembro-me das ligaçoes telefônicas interurbanas. Pedíamos a ligação pela manhã e, à noite, ficávamos esperando que fosse completada. A telefonista era mulher importante. Dependíamos dela. Falávamos alto. Até hoje me pego falando alto ao telefone pelo costume daquela época. Imaginem como explicar aos meus netos que já houve tempo em que conseguíamos viver sem celular.

Brincávamos na calçada. Inventávamos brincadeiras, e tudo era novidade. As senhoras, depois do jantar, sentavam-se às portas das casas e conversavam coisas sem importância. Falavam de alguém que morreu, da criança que estava com catapora ou sarampo, de alguém que viajou. Trocavam receitas, reclamavam da algumas dores, sugeriam o doutor. Conversas, prosas, causos. E o tempo demorava a passar. E era bom. Eu gostava de brincar na chuva. Só tínhamos medo de raio. Continuo tendo. Mas há tantos outros medos hoje em dia.

Lembro-me de quando conheci meu primeiro namorado, que virou meu marido e que vive comigo até hoje. Quanta timidez. Eram olhares trocados, risos românticos, frio na barriga. E nada mais. Apenas sonhava. E assim nos casamos. E a lua-de-mel. Como eu tinha vergonha. E aos pouco fui sentindo a beleza do amor. Hoje é diferente. Não quero parecer ultrapassada, ranzinza. Mas tenho medo.

Olho os meus netos e tenho medo de que um dia acabe a água do mundo. E parece que vai acabar mesmo. O ser humano maltratou muito a natureza. Tenho medo da violência. Tenho medo de que sejam infelizes. Adoros meus netos, mas acho que na infância deles, há tecnologia demais e poesia de menos. Não acreditam em nada. Não contam histórias. Jogam videogame e viajam na internet. Eu também gosto de internet. Mas de vez em quando. Eu gosto é de falar. Gosto de falar com gente, ao vivo.

Meu Deus! Quero Te pedir pelos meus netos. Que o mundo não seja cruel com eles. Que os vícios de hoje não retirem deles a beleza de vida que têm. Que não cresçam longe do amor. Tenho tanto medo de que falte a eles um coração solidário e digno. Tenho medo de que os caminhos tortuosos sejam mais sedutores do que o reto caminho. Tento ensinar. Mas não sei se me ouvem. Sei que gostam de mim, mas fazem o que querem. Acho que os pais não são tão presentes. Que saudade da minha mãe, do meu pai. Era tão diferente. Não havia um dia em que ficávamos sem nos falar. Gostava da hora em que papai voltava do trabalho. Gostava de saber de tudo. Gostava das leituras de mamãe. Disputávamos para ver quem deitava no seu colo enquanto ela lia as mesmas histórias.

Sei que os tempos mudaram, mas sei também que nada substitui o amor. E é isso que peço nessa singela oração. Vejo os meus netos crescendo, sei que têm bons sentimentos, mas às vezes sinto que falta alguma coisa. São tão preocupados com eles mesmos, não têm muito tempo para pensar nos outros, na humanidade. E isso é essencial. Sem esse sentimento, não serão felizes. Senhor, não permita que sejam egoístas, materialistas. Toca no coração deles. Eu tento. Tu podes. Toca no coração deles e preenche o vazio dessa época de pouco tempo. Que eles sejam lindos por fora e por dentro. E que eles façam a diferença neste mundo. Que eles sejam bons. Apenas isso. E sei que serão felizes.

Obrigada, Senhor! Tenho a certeza de que me ouves, hoje e sempre.

Amém!

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